quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Rosh Hashaná

Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo. (Vilém Flusser)



Laços de sangue não garantem compreensão. Nada garante compreensão. Minha família paterna, com raras exceções, é uma farsa. Não sei em que momento eles se tornaram completos desconhecidos, seres desprezíveis e desprovidos de significado. Meros significantes arbitrários, peças descartáveis, descoladas de sentido.

Um casamento fracassado mantém as aparências e se legitima em fotos de viagens à Europa e na escritura de uma suntuosa casa de campo para os fins de semana. A tevê da sala é cada vez maior, a ponto de deformar as feições do William Bonner. Minha tia, psicanalista famosa de rosto envelhecido pelas plásticas, descobre que me casei e deposita dois cheques de pacientes no bolso da minha calça jeans. Agradeço sem olhar o valor. É um cala-boca inútil. Não há o que calar: em ambientes hostis minha voz já não sai. Faço meu prato, vou para varanda e me isolo em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas. Do lado de dentro da casa, uma bandeja cai e dois copos se estilhaçam. O guaraná diet mancha o tapete comprado num leilão de Nova York.

Antigamente, havia o Kilt, o cachorro de latido estridente que perseguia todos os convidados. Meus tios se recusavam a prendê-lo. E me prendiam na varanda. Mas o Kilt morreu num acidente de elevador. Hoje não há mais desculpa. E eu continuo presa na varanda.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Casamentos, mortes e ímãs de geladeira

Amigo Stephen, amiga Persona,
um trator passou por cima de mim neste fim de semana. Estava eu estragando as articulações do meu joelho na areia pedregosa e caquética (cheia de cacos de vidro) da praia de Copacabana, quando um daqueles veículos me acertou em cheio. Fiquei estatelada no chão, imóvel, ensanqüentada, olhos esbugalhados de morto. Uns curiosos me cercaram para ver o meu estado. Mas ninguém me salvou. Salvar é o verbo dos ingênuos. Não há salvação. Ao recobrar a consciência, com o corpo todo triturado, havia esquecido meu nome e minha origem, e só conseguia falar em jogos de toalha, jogos de travesssa e jogos de lençóis. Tudo são jogos, meus caros conterrâneos. Meu universo semântico se afunila. Falei a palavra casamento cerca de 13 vezes na sexta, 42 no sábado e 67 no domingo. Saudei pessoas, vi alianças. Ouvi sermões católicos, torci pela liturgia judaica, desobedeci às exigências de um padre, espirrei compulsivamente ao ouvir todos à minha volta entoando um pai-nosso. O catolicismo me pareceu clichê, coisa de novela das seis. Um padre tem para mim a credibilidade de um policial militar. Entre uma cerimônia e outra, conversei sobre amenidades, conversei sobre ímãs de geladeira. Vocês já conversaram sobre ímãs de geladeira? Pois eu já.

E, ontem, antes de dormir, senti a angústia da morte pela primeira vez e comecei a chorar. Somos vaidosos, egóicos, narcisistas. Nos julgamos imortais. Sabe, é tudo inútil. Vamos morrer. Enquanto eu via uma foto qualquer, descobri que vou morrer. Ontem eu descobri que a morte também me levará. Algum dia, não estarei aqui para contar. Amigo Stephen, eu morrerei. Amiga Persona, eu morrerei. Vamos morrer. Cada um vai pra um lado. Ninguém vai pra lugar nenhum. Tudo vai se acabar. Estou falando sério. Acreditem em mim. Acreditem na morte. Ontem eu descobri a morte. E caí no abismo.

Adeus.

sábado, 1 de setembro de 2007

Só para constar

Meus caros,

Persona tem andado com sérios problemas. Depois de ter ouvido de sua analista que tem compulsão pela dúvida, em vez de tentar minimizar a constatação, só tem colaborado para aumentá-la. Como se não bastasse, parece que anda tendo problemas de identidade. Ste(l)phen, li toda a sua carta para a Luciana como se eu fosse Luciana Gonzaga de Sá. Ainda pensei: “Como posso ser a amiga tijucana de Ste(l)phen se não moro nem nunca morei na Tijuca?”. Além disso, ainda pensei em admoestá-lo novamente com aquele papo de que nunca me (ou)viu, então, não sabe que sexo tenho. Perdoe-me por internalizar por alguns segundos sua identidade, Luciana. Não, não tenho por que pedir desculpas, afinal, não podemos esquecer sua longínqua quota de responsabilidade nesse meu lapso momentâneo.

Luciana, não diga que “a Tijuca é um imenso grill” sem nunca ter estado em Bangu ou em Realengo. Seu parâmetro é Copacabana, Luciana, uma grande injustiça com a Tijuca. Tenho uma prima tijucana que só não se muda para Copacabana porque a mãe não gosta. Essa minha prima já passa dos 50 e mora apenas com a mãe. Nunca se casou. Talvez ela se mude quando a mãe morrer; ou não, sempre há espaço para a culpa.

Comprar varais não é tão ruim assim, Luciana. Pior é usá-los.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A epistemologia dos varais

Stephen,
em primeiro lugar, o verão já chegou à Tijuca. Dia desses, um termômetro da avenida Maracanã registrava 36 graus. Em Copacabana, fazia 27 graus. A Tijuca é pura brasa. Conheço pessoas que já fritaram ovos no asfalto da Conde de Bonfim. A Tijuca é um imenso grill, Stephen. Já experimentou deitar no chão da Barão de Mesquita ao meio-dia? Faça a experiência, Stephen. Pare o trânsito da Barão de Mesquita. Tire toda a roupa e se estatele no asfalto vulcânico da sua terra natal.

Ontem comprei dois varais na Casa e Vídeo. Sabe, Stephen, nunca imaginei que chegaria o dia em que seria necessário comprar varais. "Moço, me vê um varal" sempre foi uma frase impensável para mim. Eu acreditava que varais se multiplicassem por abiogênese. Jamais poderia imaginar que o varal fosse uma preocupação humana, uma necessidade, uma questão. Quando criança, ao idealizar meu futuro, não cheguei a incluir nele a compra de varais. Varais são figurantes da vida, verdadeiros escravos acorrentados em sua insignificância. Nada pior do que ser digno de deboche. Um varal merece meu deboche. Eu debocho de varais. Varais são risíveis, patéticos. Você já comprou varais? Pois eu sim. Eu comprei varais.

domingo, 26 de agosto de 2007

Um novo passo e uma escada de aço

Stephen,

estou sem palavras. No lugar delas, as forças da objetividade. Gostaria de sair intacta disso tudo. Não queria me deixar contaminar pela praticidade e a burocracia. Será possível? O que vai ser de mim? Em dois dias fui a dois cartórios. Ontem passei a tarde no Ponto Frio do Barrashopping. Não há dia em que eu não fale em eletrodomésticos, a maioria dos quais eu não sei nem ligar na tomada. Nunca fui apresentada à máquina de lavar roupa. O ferro funciona com água ou sem, afinal? E, cá entre nós, o que é "frost free"? Terá a torradeira uma função secreta além de torrar pão? Preciso ir ao google descobrir como se faz feijão. Não sei se já te disse, Stephen, mas o feijão é um dos pilares da minha existência. O feijão é meu chão. O que seria de mim sem feijão? Na sexta-feira compramos uma escada na Casa e Vídeo da Conde de Bonfim. Já passava das 20h e a rua estava deserta. A Tijuca se recolhe cedo. Caminhamos com uma escada de aço nas mãos. A de alumínio. bem mais leve, era 20 reais mais cara. No dia seguinte, compramos latas de tinta. Agora, eu digo coisas como: "Me vê uma lata de palha, toque de seda, 18 litros. E aguarraz, por favor." Aguarraz. Eu poderia morrer sem isso. Não sei o que é, não sei como se escreve e não vou procurar no Houaiss. Confiarei na minha intuição: Aguarraz não tem no Houaiss. Bela forma de se começar um poema.

Há espelho quebrado, porta fora de esquadro, novas cláusulas no contrato. Prato, preciso comprar prato. Pra-prato. Como fugir da cacofonia?

Continue escrevendo, Stephen.

Saudações domicilares,
Luciana

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sem rasuras

Não vou rasurar a missiva anterior. Escrevi, publiquei e lá ficará, embora já não represente meus sentimentos mais profundos. Fiapos, instantes, flashes (esse lance de "flash" é meio Amaury Júnior, concordam?). Ar, ar, ar. Nada é palpável por aqui. Reli a epístola e me dei conta de que não passa de panfleto. Reclamei de falta de ironia e eu própria não tive nenhuma. Criança reclamona. Resmungo para preencher silêncios no Cosmos. Adeus.

Adjetivos de impacto emocional

Imbecis, idiotas, inúteis, medíocres, pulhas. Nenhuma sofisticação, nenhuma ironia. Vivemos na ditadura da mediania. O diálogo é impossível. Mentes estreitas, sensibilidade pasteurizada, piadas da praça-é-nossa, gargalhas estridentes. A alegria de viver. Uns merdas. Estou sem paciência. E leio Angústia, de Graciliano Ramos. Ótimo representante da literatura raivosa.