Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo. (Vilém Flusser)
Laços de sangue não garantem compreensão. Nada garante compreensão. Minha família paterna, com raras exceções, é uma farsa. Não sei em que momento eles se tornaram completos desconhecidos, seres desprezíveis e desprovidos de significado. Meros significantes arbitrários, peças descartáveis, descoladas de sentido.
Um casamento fracassado mantém as aparências e se legitima em fotos de viagens à Europa e na escritura de uma suntuosa casa de campo para os fins de semana. A tevê da sala é cada vez maior, a ponto de deformar as feições do William Bonner. Minha tia, psicanalista famosa de rosto envelhecido pelas plásticas, descobre que me casei e deposita dois cheques de pacientes no bolso da minha calça jeans. Agradeço sem olhar o valor. É um cala-boca inútil. Não há o que calar: em ambientes hostis minha voz já não sai. Faço meu prato, vou para varanda e me isolo em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas. Do lado de dentro da casa, uma bandeja cai e dois copos se estilhaçam. O guaraná diet mancha o tapete comprado num leilão de Nova York.
Antigamente, havia o Kilt, o cachorro de latido estridente que perseguia todos os convidados. Meus tios se recusavam a prendê-lo. E me prendiam na varanda. Mas o Kilt morreu num acidente de elevador. Hoje não há mais desculpa. E eu continuo presa na varanda.